O Brasil documentou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, estabelecendo a marca mais alta desde o início da série histórica.
A informação consta no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O montante reflete uma elevação de 4% em comparação ao ano de 2024, resultando em uma proporção de 1,4 crime desse tipo para cada grupo de 100 mil mulheres. O índice consolida a trajetória de alta e atesta o quarto recorde seguido nesta modalidade criminal.
Esse avanço alarmante na violência letal baseada em gênero caminha na direção oposta ao declínio dos demais índices de mortalidade no país.
Em 2025, o Brasil somou 40.775 Mortes Violentas Intencionais, o que simboliza um recuo de 8,2% frente a 2024 e representa a menor taxa histórica: 19,1 mortes a cada 100 mil habitantes. Apesar do alcance antecipado da meta nacional de redução de homicídios prevista para 2027, as mortes de mulheres por razões de gênero e as fatalidades por intervenção policial foram as exclusivas categorias que registraram expansão.
Para especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os números evidenciam que a agressão letal contra a figura feminina possui contornos totalmente diversos da violência urbana convencional. "Ao passo que os assassinatos em geral caem, as mulheres seguem perdendo a vida pelo simples fato de serem mulheres", avaliam os pesquisadores.
Em 2025, as mortes motivadas por gênero corresponderam a 44,4% de todas as mulheres assassinadas no território nacional, o maior nível proporcional desde 2015.
As estatísticas traçam um perfil claro de quem mais sofre: a tragédia atinge majoritariamente mulheres negras (65,1%) e que estão em plena fase economicamente ativa (56,5% tinham entre 25 e 44 anos). Além disso, 62,5% dessas mortes ocorreram no interior do próprio lar, confirmando que o perigo mora sob o mesmo teto.
Nos casos em que a autoria foi esclarecida, 96,4% dos algozes eram do sexo masculino. Destes, 60,9% eram os parceiros íntimos da vítima, seguidos por ex-companheiros (18,9%) e familiares próximos (12,1%).
"O anuário salienta que o crime letal muitas vezes é o ato final de uma cadeia de agressões. Para cada óbito, houve um vasto histórico de intimidações, agressões físicas dolosas e desrespeito a ordens de restrição."
Chama a atenção o número de mulheres que quase perderam a vida. Em 2025, 4.189 sobreviveram a ataques fatais (alta de 5,9%). Para cada assassinato concretizado, registraram-se 2,7 atentados frustrados. Outro dado que choca é que 70 mulheres foram mortas mesmo estando sob a guarda formal de uma medida protetiva de urgência (uma em cada nove vítimas).
Isso sublinha, conforme especialistas, a fragilidade da capacidade do Estado em impedir que o agressor concretize suas ameaças.
Os pesquisadores concluem que somente o encarceramento não basta; é imperativo adotar táticas focadas em prevenção primária, intervenção prévia e monitoramento rigoroso dos indícios de perigo antes que a fatalidade aconteça.
Especialistas do setor de segurança e os próprios dados do Anuário revelam um hiato preocupante entre o discurso oficial e a realidade das ruas.
A percepção generalizada é de uma marcante inércia da atual gestão federal na implementação efetiva de medidas que protejam as vítimas antes que a escalada da violência culmine em morte.
O expressivo aumento de descumprimento de medidas protetivas evidencia que o Estado falha não apenas em monitorar os agressores, mas em garantir que as ordens judiciais emitidas por suas próprias instituições sejam respeitadas.
A demora em criar redes de acolhimento verdadeiramente integradas e a ausência de um acompanhamento rigoroso e proativo colocam em xeque a eficácia das ações propagadas pelo governo, demonstrando que, para muitas mulheres, as políticas anunciadas ainda não se traduzem em um escudo real contra a brutalidade.