
Caso viraliza nas redes e expõe a voracidade arrecadatória do Estado, reacendendo o debate sobre o protecionismo e o "Custo Brasil" que penaliza o consumidor.
O que deveria ser uma oportunidade de adquirir um bem de qualidade por um preço justo transformou-se em um exemplo didático — e amargo — de como funciona o sistema tributário brasileiro. Um brasileiro, cuja identidade foi preservada, adquiriu um veículo nos Estados Unidos pelo valor de US$ 2.000 (aproximadamente R$ 11.500 na cotação atual). No entanto, ao calcular os custos para nacionalizar o bem, foi surpreendido com uma fatura de impostos e taxas que totaliza cerca de R$ 180.000.
O caso choca pela desproporção: o valor exigido pelo governo brasileiro supera em mais de 15 vezes o preço original do veículo.
A "Sopa de Letrinhas" Tributária
Para entender como um carro de 11 mil reais se transforma em um passivo de quase 200 mil, é preciso mergulhar no complexo emaranhado burocrático da importação. Não se trata apenas de converter a moeda. A incidência de tributos ocorre em "efeito cascata" (imposto sobre imposto).
A conta inclui, mas não se limita a:
Imposto de Importação (II): Uma das alíquotas mais altas do mundo para proteger a indústria local.
IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados): Que varia conforme a potência do motor.
PIS e COFINS: Tributos federais que incidem sobre a importação.
ICMS: O imposto estadual que é calculado sobre o total já tributado, inflando ainda mais o valor.
Taxas Administrativas: Siscomex, frete internacional, seguro, armazenagem portuária e despachante aduaneiro.
Protecionismo ou Confisco?
A situação levanta críticas severas de economistas e defensores do livre mercado. O argumento histórico do governo é a necessidade de proteger a indústria automobilística nacional. Contudo, críticos apontam que essa proteção, vigente há décadas, acomodou as montadoras locais, que praticam preços elevados por veículos que, muitas vezes, oferecem menos tecnologia e segurança que os modelos internacionais.
"Não estamos falando de tributação justa, estamos falando de uma barreira proibitiva. Quando o cidadão paga um carro para si e quase dois para o Estado, o conceito de imposto se perde e vira confisco," analisa Carlos Mendes, consultor tributário.
O caso ilustra a realidade do poder de compra do brasileiro, que é corroído não apenas pela inflação, mas por um Estado que encarece o acesso a bens duráveis. Enquanto em outros países um veículo de US$ 2.000 é um meio de transporte acessível para a classe trabalhadora ou estudantes, no Brasil, tentar trazê-lo é um luxo inalcançável.
A Questão dos Carros Usados
É importante ressaltar que a legislação brasileira atual proíbe a importação de carros usados, exceto em casos específicos, como veículos de coleção com mais de 30 anos ou propriedade de diplomatas.
Se o veículo em questão se enquadra na categoria de colecionador, a tributação segue a lógica descrita acima. Se fosse uma tentativa de importação comum, além dos impostos, o proprietário ainda enfrentaria o perdimento do bem e multas pesadas, evidenciando que a liberdade econômica do cidadão termina onde começa a fronteira alfandegária.
O episódio serve como um alerta para quem sonha com preços internacionais e uma crítica contundente a um sistema que parece desenhado para manter o consumo de qualidade longe do alcance da maioria da população.