
O Carnaval brasileiro, uma das mais importantes expressões culturais do mundo, vive um momento de mudanças profundas que têm despertado debates entre artistas, pesquisadores e especialistas em cultura. Originalmente marcado por ricas tradições populares que expressavam identidades locais, resistência e criatividade, a festa tem sido criticada por uma suposta perda de profundidade cultural frente à sua crescente mercantilização e padronização das expressões artísticas.
Historicamente, o Carnaval brasileiro incorporou influências africanas, indígenas e europeias e tornou-se um espaço de resistência cultural e afirmação de identidades, especialmente afro-brasileiras. Manifestos e práticas culturais como o samba de roda, o frevo e o maracatu representam saberes tradicionais que foram reconhecidos como bens culturais protegidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) justamente por sua importância social e histórica.
No entanto, especialistas apontam que nas últimas décadas essa riqueza simbólica tem sido substituída em muitas regiões por um entretenimento padronizado, de consumo rápido e superficial. Críticos argumentam que a mídia e a indústria do entretenimento priorizam blocos privados e músicas virais sem conexão com as tradições históricas do Carnaval — diminuindo a presença de marchinhas, ritmos regionais e narrativas culturais profundas. Essa transformação tende a empobrecer o evento enquanto espaço de afirmação identitária e de transmissão intergeracional de saberes populares.
Além do aspecto cultural, pesquisadores em psicologia e educação destacam que experiências culturais intensas — como a participação em festividades populares com música, dança, arte e rituais coletivos — podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociais, especialmente quando essas experiências incentivam criatividade, expressão e pertencimento.
Festas populares, quando vividas de forma participativa (por exemplo, na confecção de fantasias ou composição de samba), estão associadas à estimulação de imaginação, laços sociais e aprendizado informal.
Estudos em psicologia cultural sugerem que contextos ricos em diversidade de símbolos, histórias e práticas culturais facilitam processos cognitivos ligados à flexibilidade mental, empatia e pensamento criativo — aspectos que podem ser menos exercitados em um ambiente culturalmente “nivelado por baixo” ou reduzido a um consumo de massa sem profundidade simbólica.
Articulistas defendem que o Carnaval deve ser mais do que uma grande festa de música pop e consumo de bebidas: ele deve resgatar seu papel como espaço de formação de identidade cultural, diálogo intergeracional e resistência a narrativas dominantes que tendem a descaracterizar as tradições populares.
A preservação de ritmos e manifestações locais, assim como o incentivo à participação comunitária, são vistos como formas de manter viva a memória cultural e fortalecer a cognição coletiva e individual através do engajamento criativo.
O debate sobre o empobrecimento do Carnaval vai além da nostalgia: ele coloca em questão como a sociedade valoriza ou não suas tradições culturais e qual o impacto disso na formação cognitiva e social dos indivíduos.
Reforçar o caráter educativo, participativo e cultural do Carnaval pode não só preservar um patrimônio imaterial único, mas também estimular dimensões cognitivas importantes, como criatividade, memória cultural e capacidade de interpretação simbólica — elementos essenciais para a formação de cidadãos mais críticos e culturalmente engajados.
Fonte: https://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/3469/carnaval-brasileiro-e-caracterizado-por-bens-culturais-protegidos-pelo-iphan
https://multiversoeducacao.com.br/blog/carnaval-na-escola-e-outras-festas-culturais-multiverso/
https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/carnaval-fortalece-bens-culturais-e-desenvolve-a-economia-criativa-das-regioes