
Motoristas que trafegaram pelos trechos Sul e Leste do Rodoanel Mário Covas entre 12 de maio e 29 de junho foram monitorados por câmeras equipadas com inteligência artificial. Durante os 49 dias de testes, os equipamentos registraram 7.297 possíveis infrações dentro dos veículos.
Do total, foram identificados 3.335 motoristas sem cinto de segurança, 1.956 passageiros na mesma situação e 1.369 pessoas segurando o celular enquanto dirigiam.
Como o sistema ainda estava em fase experimental, nenhum condutor foi multado nesse período. Desde 1º de julho, porém, a Polícia Militar Rodoviária passou a utilizar as imagens para aplicar autuações.
As câmeras contam com sensores infravermelhos e podem operar durante 24 horas, inclusive em condições de pouca luminosidade. O sistema consegue visualizar o banco dianteiro mesmo quando o veículo está em alta velocidade.
O algoritmo identifica uma possível infração e envia o registro para a tela de um policial. Cabe ao agente analisar a imagem e decidir se a ocorrência será validada ou descartada.
A legislação de trânsito não permite que a inteligência artificial aplique multas de forma automática. Além disso, imagens captadas em dias anteriores não podem ser utilizadas para autuação, segundo as regras informadas para a operação.
O horário com maior concentração de registros foi por volta das 6 horas da manhã. O período coincide com o deslocamento de trabalhadores e pode estar relacionado à falta de atenção causada pelo sono e pela rotina de saída para o trabalho.
A experiência em Ribeirão Preto é apontada como exemplo do impacto da tecnologia. Na cidade, onde câmeras semelhantes são utilizadas desde outubro de 2025, a média diária de multas teria aumentado de aproximadamente 30 para 350. Nos trechos monitorados, os acidentes caíram 15%.
Apesar dos resultados relacionados à fiscalização, o uso de câmeras capazes de observar o interior dos veículos também provoca preocupações sobre privacidade.
A Lei Geral de Proteção de Dados exige sigilo das informações coletadas e rastreamento dos acessos às imagens. A Polícia Rodoviária Federal afirma que o sistema não utiliza reconhecimento facial.
Por enquanto, a tecnologia é limitada à identificação de possíveis infrações previstas na legislação de trânsito. O avanço, contudo, reacende o debate sobre até onde pode ir a vigilância em espaços considerados privados — mesmo quando o veículo circula em uma rodovia.
A inteligência artificial já chegou às estradas. A discussão sobre seus limites ainda está apenas começando.