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Habib’s pede recuperação judicial

Habib’s entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265,2 milhões

Redação
Por: Redação Fonte: Agência de Notícias
27/08/2026 às 12h24 Atualizada em 27/08/2026 às 14h08
Habib’s pede recuperação judicial
Reprodução

O Grupo Gennius, controlador das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, ingressou com pedido de recuperação judicial para renegociar um passivo declarado de R$ 265,2 milhões. A solicitação foi protocolada na segunda-feira (24) e aceita pela Justiça de São Paulo no dia seguinte.  

O processo tramita na 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, sob responsabilidade do juiz Jomar Juarez Amorim, que nomeou a consultoria KPMG para atuar como administradora judicial. A empresa terá 15 dias para apresentar um relatório inicial sobre a situação patrimonial e operacional do grupo.  

Empresas e unidades envolvidas

A recuperação judicial abrange:

  • 119 lojas próprias do Habib’s;
  • 26 unidades do Ragazzo;
  • seis churrascarias Tendall Grill;
  • 10 franqueadoras e holdings;
  • 17 sociedades operacionais.  

Prazo para apresentação do plano

O Grupo Gennius terá 60 dias para apresentar um plano de recuperação judicial aos credores. Caso o prazo não seja cumprido, o processo poderá ser convertido em falência.  

A Justiça determinou a suspensão de ações e execuções contra as empresas, mas rejeitou o pedido para liberar recebíveis bancários oferecidos como garantia. Os credores ainda poderão contestar os valores apresentados ou solicitar a inclusão de débitos na relação de credores.  

A empresa afirma que pretende promover uma reorganização societária, ampliar a atuação no delivery e abrir novas unidades em mercados considerados estratégicos. Fundado em 1987, o Habib’s construiu sua expansão com uma estratégia baseada em preços acessíveis e alto volume de vendas, posteriormente diversificando as operações com as marcas Ragazzo e Tendall Grill.  

Recuperações judiciais e a política econômica atual

O pedido de recuperação judicial do Grupo Gennius não é um caso isolado. Dados do Serasa Experian mostram que o Brasil registrou 2.273 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior número desde 2005. Em 2026, até julho, já eram 1.401 requerimentos — uma média de 200 por mês, ritmo superior ao do ano anterior.

1. Taxa de juros como instrumento e consequência

A Selic é definida pelo Banco Central, que tem autonomia legal desde 2021. No entanto, a política fiscal do governo — com déficits primários recorrentes e dívida pública em trajetória de alta — pressiona as expectativas de inflação e obriga o BC a manter os juros elevados por mais tempo.

Para empresas como o Habib's, que operam com capital de giro financiado, cada ponto percentual adicional na Selic representa aumento direto no custo da dívida. Com faturamento pressionado e margens estreitas, a conta não fecha — e a recuperação judicial se torna a única saída jurídica para evitar a falência.

2. Inflação de alimentos e consumo reprimido

A inflação de alimentos acumulada em 12 meses tem rodado acima do IPCA geral. Isso afeta o setor de alimentação de dois lados:

  • Custo dos insumos: farinha, carne, óleo, laticínios — todos subiram acima da média
  • Renda disponível: o consumidor, com o orçamento comprimido pela inflação, reduz a frequência de consumo fora de casa ou migra para opções ainda mais baratas

A política econômica atual, ao expandir gastos correntes sem contrapartida de aumento de produtividade, contribui para a persistência inflacionária. Não há investimento público relevante em infraestrutura logística que pudesse reduzir custos de transporte e armazenamento de alimentos — o que aliviaria a pressão sobre o setor.

3. Crédito direcionado insuficiente

Programas de crédito subsidiado para pequenas e médias empresas do setor de serviços e alimentação não tiveram escala suficiente nos últimos três anos. O BNDES, por exemplo, direcionou a maior parte dos desembolsos para o agronegócio e infraestrutura de grandes grupos. Redes como o Habib's, que faturam centenas de milhões mas não são gigantes de capital aberto, ficam no meio do caminho: grandes demais para linhas de microcrédito, pequenas demais para acessar o mercado de capitais com taxas competitivas.

4. Cenário de continuidade da atual gestão:

Com déficits fiscais, gasto corrente elevado, baixo investimento produtivo e juros estruturalmente altos —, o ambiente para empresas dependentes de crédito e consumo de massa tende a se agravar:

  • Mais pedidos de recuperação judicial em setores como alimentação, varejo, vestuário e serviços.
  • Fechamento de unidades e demissões, com impacto direto sobre a arrecadação e a atividade econômica.
  • Concentração de mercado, com grandes grupos absorvendo concorrentes fragilizados
  • Efeito cascata sobre franqueados, que são pequenos empreendedores sem reserva financeira para suportar ciclos longos de juros altos.

O caso Habib's, portanto, não é um acidente de percurso. É um sintoma de uma economia onde o crédito é caro, o consumo está comprimido e o Estado gasta sem investir — combinação que tende a se repetir enquanto a política econômica mantiver essas características.

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