
Um fenômeno recente que vem ganhando visibilidade nas plataformas como TikTok e Instagram é o dos chamados “therians” — jovens que afirmam sentir-se, emocionalmente, como animais e expressam essa identidade em comportamentos e posturas profundamente ligados a espécies não humanas. Vídeos desses grupos viralizaram, mostrando adolescentes agachados, andando de quatro ou imitando sons e movimentos de cães, gatos e outros animais.
De acordo com o psicanalista e psiquiatra infantojuvenil Francisco Guerrini, essa manifestação nas redes sociais muitas vezes vai além de uma “curiosidade lúdica” e pode revelar sofrimento emocional associado à falta de vínculos estáveis no ambiente familiar, especialmente a ausência de uma figura paterna identificatória e de cuidado. “A primeira coisa que se deve pensar é se há sofrimento”, observa o especialista, destacando que jovens buscam nas comunidades virtuais um sentido de pertencimento que falta no convívio familiar.
Guerrini ressalta que, embora parte do fenômeno possa ser encarada como expressão ou jogo, sinais comportamentais extremos merecem atenção profissional — por exemplo, quando adolescentes começam a imitar animalidade de forma persistente, inclusive envolvendo comportamentos que lembram lambidas, mordidas ou isolamento social. “Quando começam a morder, já se trata de outra problemática, mais próxima de um episódio psicopatológico”, alerta.
Especialistas em desenvolvimento infantil observam que crianças e adolescentes em fases sensíveis de construção de identidade precisam de atenção afetiva consistente, e que ausência de presença paterna ou de figuras de referência pode intensificar sentimentos de insegurança, isolamento e busca por pertencimento em grupos alternativos da internet. A ausência de carinho paterno — presença emocional, escuta e limites — é apontada como fator que pode facilitar a aderência a comportamentos impulsivos ou identitários extremos, com potencial prejuízo à socialização saudável.
Além disso, educadores e psicólogos alertam para os perigos da confusão entre identidade cultural ou lúdica e comportamentos que podem ser associados à bestialização infantil. Bestialização, em contextos psicológicos, refere-se à adoção de comportamentos que imitam animais de forma que atrapalha o desenvolvimento normal das relações humanas, a aprendizagem e o desenvolvimento cognitivo das crianças. Isso pode estar ligado ao uso excessivo de telas e à falta de estruturas sólidas de afeto e orientação familiar, que diminuem a capacidade crítica e afetiva dos jovens frente a tendências das redes sociais.
Profissionais de saúde mental reforçam que, embora o fenômeno dos therians tenha nuances variadas e nem sempre indique sofrimento profundo, o contexto global de redes sociais aceleradas e de conexões virtuais substituindo relações humanas reais requer uma abordagem cuidadosa e empática — especialmente quando envolve menores de idade.
“É preciso olhar para trás e perguntar: quem está cuidando dessas crianças? Quem as acolhe emocionalmente? Sem essa base, comportamentos virais podem virar perdas de autoestima, confusão de identidade e afastamento dos vínculos sociais saudáveis”, conclui um psicólogo especializado em adolescentes.