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Uso de cigarro eletrônico entre adolescentes quase dobra em cinco anos, alerta pesquisa do IBGE

Adolescentes de 13 a 17 anos: 29,6% já experimentaram o produto

Redação
Por: Redação Fonte: Secom SP
24/05/2026 às 09h48
Uso de cigarro eletrônico entre adolescentes quase dobra em cinco anos, alerta pesquisa do IBGE

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 (PeNSE 2024), do IBGE, revelou um avanço preocupante no uso de cigarro eletrônico entre adolescentes de 13 a 17 anos. Em 2024, 29,6% dos estudantes já haviam experimentado o produto. Em 2019, o índice era de 16,8%, o que representa um salto de quase 13 pontos percentuais em cinco anos.

Os dispositivos — conhecidos como vapes, pods, e-cigarettes e vaporizadores — têm comercialização, importação, fabricação e propaganda proibidas no Brasil desde 2009, por determinação da Anvisa.

Quase 1 em cada 3 adolescentes brasileiros já experimentou cigarro eletrônico, apesar da proibição da Anvisa.

Ilusão de segurança e marketing voltado aos jovens

Para a cardiologista Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor (FMUSP), o cigarro eletrônico é uma “grande ilusão”.

Segundo ela, a indústria vende a ideia de um produto mais moderno e menos nocivo, mas a realidade é oposta.

Os vapes podem conter doses de nicotina superiores às de cigarros comuns, além de até 2.000 outras substâncias, incluindo metais pesados como cobre e níquel. Essa combinação aumenta o poder de adicção, tornando-os mais capazes de causar dependência.

O apelo visual também é estratégico: cores chamativas, tons pastéis, design tecnológico e sabores adocicados e “infantis” ajudam a aproximar o produto do universo jovem, mascarando seus riscos sob uma aparência inofensiva.

Dilema internacional e endurecimento de leis

Jaqueline lembra que países como a Inglaterra chegaram a incentivar o cigarro eletrônico como alternativa ao cigarro convencional. O aumento do consumo entre jovens, porém, levou o Reino Unido a aprovar, em 2026, uma legislação histórica que proíbe para sempre a venda de cigarros a pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009.

A medida inclui ainda a proibição de venda de e-cigarettes para menores de 18 anos, mais controle sobre a comercialização para adultos e restrições ao uso de vaporizadores em áreas externas próximas a escolas e hospitais.

A própria Inglaterra, que já incentivou o vape, hoje endurece as regras após uma “epidemia de consumo” entre jovens.

Nicotina, dependência e cérebro em desenvolvimento

Nos dispositivos eletrônicos, a nicotina costuma aparecer em forma de sal de nicotina sintético, que é aquecido e inalado. Ao entrar na corrente sanguínea, ela atinge o sistema nervoso central e se liga a receptores de acetilcolina, desencadeando uma cascata que termina na liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e bem-estar.

O pesquisador Henrique Bombana, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, explica que esse efeito é rápido e de curta duração. Para repetir a sensação, o usuário acaba consumindo o produto com frequência, o que favorece a instalação da dependência.

Além do vício, a nicotina está associada a maior risco de infarto, AVC, hipertensão, alterações de frequência cardíaca, problemas bucais, risco aumentado de diabetes, câncer de pâncreas e danos ao pulmão.

Entre adolescentes, o quadro é ainda mais delicado. Segundo Jaqueline, o cérebro segue em formação até por volta dos 24 anos, especialmente na região do córtex pré-frontal, responsável por decisões conscientes. A exposição precoce à nicotina altera essa fase, aumenta a vulnerabilidade a ansiedade, depressão e outros transtornos mentais e cria um elo forte de dependência.

Mudanças de comportamento e sinais de alerta

O uso de cigarro eletrônico pode ser percebido também por mudanças no dia a dia. Jaqueline cita como sinais de alerta: isolamento dentro de casa, perda de interesse por esportes e redução do envolvimento em atividades que antes eram prazerosas.

Ela reforça que o diálogo aberto entre pais e filhos é essencial para identificar o problema e oferecer ajuda, principalmente quando o uso ainda é esporádico, antes que a dependência se consolide.

Mudanças bruscas de rotina, isolamento e abandono de atividades favoritas podem ser sinais de uso de nicotina.

Como parar: tripé do tratamento e técnica do “Fumar Restrito”

O tratamento da dependência de cigarro eletrônico segue a mesma lógica do combate ao tabagismo convencional e se apoia em um tripé de cuidado:

1. Saúde mental – Muitas pessoas usam nicotina como uma forma de “acalmar” emoções. É preciso oferecer acolhimento emocional e suporte psicológico para reduzir a impulsividade e evitar que o cigarro seja a única estratégia de enfrentamento de problemas.

2. Medicamentos – São usados fármacos específicos para aliviar os sintomas de abstinência de nicotina, que podem ser combinados com reposição de nicotina em doses controladas. Jaqueline ressalta que, antes disso, é necessário reduzir de forma importante o consumo para que a reposição faça efeito.

3. Técnica do “Fumar Restrito” – Em vez de tentar eliminar todos os gatilhos, a proposta é retirar o cigarro ou o vape do contexto social. A pessoa passa a usar o produto apenas isolada, em pé, sem distrações, olhando para a parede.

Segundo a professora, essa estratégia não é punitiva. A ideia é tornar o ato de fumar mais consciente, evitando que ele aconteça de forma automática em conversas, festas ou momentos de lazer. Assim, o consumo tende a diminuir e o indivíduo se aproxima da sua “cota química” mínima, facilitando passos seguintes, como o uso de reposição de nicotina e, enfim, a cessação completa.

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